Cultura da Paz

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Cultura da Paz / Festival da Amizade

Festival da Amizade

Brasileiro estrangeiro ou estrangeiro brasileiro?

Culturalmente confuso
Brasileiro é aculturado
Líbio, libanês, árabe turco
Acha farinha do mesmo saco

Não saca croata, curdo
Não saca iugoslavo
Nem belga, nem mameluco

(Aculturado, Itamar Assumpção e Naná Vasconcelos, 2007)

A irreverência dessa peça da música popular brasileira brinca com uma questão nem sempre bem resolvida: afinal, o que é ser brasileiro e o que é ser estrangeiro em nosso país?

Ser brasileiro já foi buscar a brancura racial e o estilo de vida europeu. Até que a personalidade intelectual de Gilberto Freyre transformasse o que era vergonha - as presenças afro- descendentes e indígenas - em orgulho nacional. Ser brasileiro, então, era corporificar a mistura cultural em mestiços, cafuzos, mamelucos e mulatos.

Por outro lado, o estrangeiro no Brasil pendia em ser o modelo de vida e de futuro almejado e espelhado na Europa ou o temor de receber influências não desejáveis de povos “pouco-civilizados” como os orientais “amarelos”. Ser estrangeiro era ao mesmo tempo uma aspiração e uma ameaça.

Durante o Estado Novo (1937-1945), enquanto a miscigenação dos elementos europeu, indígena e africano era propangandeada numa concepção harmônica e idealizada de nação, os muitos imigrantes aqui presentes eram considerados “elementos perigosos à ordem nacional” e os judeus, italianos, japoneses, alemães tiveram seus jornais comunitários fechados, foram proibidos de se reunir até mesmo para festejar e passaram a ser vigiados de perto.

Passados tantos anos, os imigrantes de outrora e de hoje reelaboraram e reelaboram seus pertencimentos de ser brasileiros ou estrangeiros. Eles reinventaram hábitos, costumes, representações ao se estabelecerem no Brasil.

Ser brasileiro, desse modo, pode ser falar o português recheando-o de expressões lingüísticas de outros países ou regiões. Pode ser servir o arroz e feijão junto do “bife” temperado ao molho “shoyu”. Pode ser tantas coisas e combinações, conforme o sentimento de se sentir do Brasil.

Ao mesmo tempo, colocar-se como estrangeiro também permite aos grupos culturais se ressignificar, pois nem tudo o que faziam em suas terras pátrias é realizado aqui. São escolhidos alguns elementos para se refazer o sentido de ser “de fora”. Por exemplo, dentro de cada nacionalidade ou cada região, há diferenciações locais: há italianos genoveses, do norte, e italianos do sul da Itália; há sul-coreanos e outros que passaram pela Coréia do Norte; há bolivianos de Cochabamba ou de Santa Cruz de La Sierra. Tais diferenciações, que podem explicitar algumas diferenças alimentares, de gestos e hábitos nos lugares de origem, no Brasil, podem ser esmaecidas e reformuladas, de modo a construir uma nova referência. Assim, se na Itália, genoveses e napolitanos são encarados como populações de culturas muito diferentes, no Brasil, são englobados pela referência geral de “italianos”. Se os norte-coreanos se encontram em atrito aberto com os sul-coreanos, no Brasil, os originários de uma e de outra parte são nomeados com o termo geral de “coreanos”. Os latino-americanos, provindos de países variados, como Paraguai, Peru, Bolívia, no Brasil, são reunidos sob a alcunha de “bolivianos”.

Por isso, não é apropriado se falar em identidades grupais homogêneas e delimitadas. Cada grupo e indivíduo constrói seu sentido de pertencimento. É justamente na miscelânea de experiências culturais diversas que são criadas e recriadas essas relações.

O Festival da Amizade é um evento que celebra essas invenções e reinvenções de se ter uma nacionalidade, reunindo vozes, corpos, gestos, paladares e vontades de ser e interagir.

Sushi com chuchu misturo
Quibebe com raviole
Chopp claro com escuro
Empada com rocambole
Tudo que é falso esconjuro
Seja flerte ou love story
Quanto a ter porto seguro
Tem sempre alguém que me acolhe

(Cabelo Duro, Itamar Assumpção e Naná Vasconcelos, 2007)

Simone Toji
São Paulo, setembro de 2008

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